
O caso envolvendo o estudante de medicina Ryan Xavier passou a ser investigado pela Polícia Civil do Maranhão após a repercussão de um vídeo publicado nas redes sociais, em que o universitário faz comentários considerados ofensivos ao município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís. A denúncia foi formalizada pela Procuradoria-Geral do Município depois que o conteúdo ganhou grande alcance na internet e provocou reações de autoridades locais e moradores da cidade.
No vídeo publicado em uma rede social, Ryan aparece mostrando a fachada de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), local onde realizaria estágio acadêmico, acompanhado de uma legenda polêmica em que compara seu “tênis branquinho da ON” a uma situação distante da realidade que imaginava, afirmando que estaria “indo atender paciente no c* do Maranhão”. A postagem ainda utilizava um áudio de meme com a frase: “Acaba, pelo amor de Deus, acaba pelo amor de Deus”.
A publicação rapidamente repercutiu nas redes sociais e gerou indignação entre moradores de Paço do Lumiar, profissionais da saúde e internautas maranhenses, que classificaram o conteúdo como preconceituoso e desrespeitoso com a população local. Diante da repercussão, o prefeito Fred Campos anunciou medidas administrativas e informou o cancelamento do convênio de estágio firmado entre o município e estudantes de medicina da Universidade Ceuma, instituição onde Ryan cursa medicina.
Segundo a Polícia Civil do Maranhão (PC-MA), a Procuradoria-Geral do Município registrou denúncia formal sobre o caso, que passou a ser investigado pela Seccional Leste. Em nota, a corporação informou que os fatos serão apurados pelas autoridades competentes e que diligências já estão sendo realizadas para esclarecer todas as circunstâncias envolvendo a publicação do estudante.
A defesa de Ryan Xavier afirmou que a manifestação feita pelo universitário está protegida pelo direito constitucional à liberdade de expressão. O advogado George Azevedo declarou que a postagem não teve intenção de ofender a população maranhense, mas criticou a reação adotada pelo prefeito Fred Campos após a repercussão do caso.
Segundo o advogado, o gestor municipal pode ter ultrapassado limites legais ao divulgar publicamente o nome do estudante e associá-lo à prática de um crime antes da conclusão de qualquer investigação ou decisão judicial. Para a defesa, houve exposição excessiva e possível violação de direitos fundamentais do universitário.
“O prefeito pode estar incidindo em condutas ilícitas ao afirmar publicamente que houve crime sem qualquer sentença ou investigação concluída. Isso pode configurar crimes contra a honra, como calúnia e difamação”, afirmou George Azevedo.
O advogado também questionou o acionamento do Ministério Público do Maranhão (MP-MA) e da Polícia Civil, alegando que a mobilização das instituições públicas em razão de uma publicação em rede social seria uma medida desproporcional. Segundo ele, a postagem do estudante fazia referência às condições de acesso ao local do estágio, e não aos moradores da cidade.
Outro ponto criticado pela defesa foi a decisão do prefeito de suspender o convênio de estágio envolvendo alunos da Universidade Ceuma. Para George Azevedo, penalizar todos os estudantes da instituição por causa da atitude individual de um universitário representa uma medida exagerada e sem razoabilidade.
Após a ampla repercussão do episódio, os pais de Ryan Xavier também se pronunciaram publicamente nas redes sociais. Em vídeo publicado na internet, a mãe do estudante, Paty Xavier, afirmou que o filho reconhece o erro e está arrependido da forma como se expressou. Segundo ela, a postagem foi impulsiva e infeliz, mas não teve intenção deliberada de atacar a população de Paço do Lumiar, os profissionais da saúde ou as instituições públicas do Maranhão.
De acordo com a mãe do universitário, o comentário fazia referência às dificuldades enfrentadas para chegar à UBS onde o estágio seria realizado, especialmente em relação às condições da estrada de acesso à unidade de saúde.
“Foi uma fala impulsiva e impensada de um jovem, não um ataque deliberado contra a população ou os serviços públicos”, declarou.
Ela também criticou a exposição pública do filho após a divulgação do caso pelo prefeito e afirmou que a família passou a receber ameaças e ataques virtuais desde que o vídeo ganhou repercussão nas redes sociais. Paty Xavier pediu ainda a retirada da postagem feita pelo gestor municipal, alegando que a exposição estaria incentivando perseguições e discursos de ódio contra o estudante e seus familiares.
O pai de Ryan Xavier também publicou um vídeo de retratação. Na gravação, ele afirmou que o filho foi “completamente infeliz” na maneira como se expressou, mas reforçou que não houve intenção de ofender o povo maranhense ou menosprezar os profissionais das áreas da saúde e educação.
Ele pediu desculpas aos moradores da região, aos trabalhadores da UBS e à população do Maranhão que se sentiu atingida pelas declarações do estudante. Segundo o pai, a fala sobre “tênis branco e barro” fazia referência exclusivamente às dificuldades estruturais encontradas no trajeto até a unidade de saúde.
O caso segue sendo investigado pela Polícia Civil do Maranhão e continua gerando debates nas redes sociais sobre os limites da liberdade de expressão, responsabilidade no uso das plataformas digitais e as consequências de publicações consideradas ofensivas ou discriminatórias.